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09/08/2015 - 02h00

Cargo de lobista é estratégico para as empresas e atrai profissional de diversas áreas

TAíS HIRATA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Há 25 anos, Rodrigo Navarro foi chamado para um estágio na multinacional Xerox. Sua formação era em engenharia, mas o cargo, descobriu depois, era de lobista. "Na época, não tinha ideia do que era a profissão", conta.

Hoje, Navarro coordena o primeiro MBA no país para quem quer se especializar na profissão, na FGV de Brasília.

"É uma atividade em crescimento. As empresas estão valorizando essa área, é o filé das companhias", descreve o engenheiro, que atualmente defende os interesses da Copersucar, exportadora de açúcar e etanol.

Com uma agenda cheia de reuniões e viagens, o lobista passa a maior parte do tempo conhecendo os chamados tomadores de decisão, que vão desde o responsável de uma empresa por fechar novos negócios a um deputado.

As duas associações da categoria no Brasil reúnem cerca de 400 profissionais. No entanto, especialistas estimam que o número de lobistas seja muito maior.

"Não há nenhum tipo de cadastro oficial, então é difícil calcular", diz Anselmo Takaki, que trabalha para uma multinacional coreana.

Parte da dificuldade está no fato de que a profissão ganha vários títulos, como "relações governamentais" ou "assuntos estratégicos".

Eles servem para driblar o termo "lobista", que ganhou forte conotação negativa no Brasil, associado muitas vezes a escândalos de corrupção, como o da Petrobras.

O estigma é combatido pelos profissionais. Eles alegam que uma regulamentação poderia dar nova cara à ocupação, que consideram parte essencial da política.

"É inevitável em uma democracia que a sociedade queira influenciar o poder público, não dá para discriminar", diz o professor de ciências políticas da Unicamp Valeriano Costa.

Mesmo com a má fama, a profissão de lobista está em alta. "As empresas perceberam que só cumprir as leis não funciona, também é possível mudar a legislação", diz o relações governamentais Anselmo Takaki.

O cargo é valorizado: os salários chegam a R$ 50 mil, de acordo com o tamanho da companhia e a experiência do profissional.

Sem formação obrigatória, o perfil dos lobistas é variado. Segundo levantamento do Instituto Relações Governamentais, a maioria estuda direito, relações internacionais ou economia.

Mas há cientistas políticos, jornalistas, marqueteiros, engenheiros e até médicos. "Não há graduação que prepare para a atividade", explica Rodrigo Navarro, que atua pela Copersucar.

Ele indica a interessados na área complementar a formação. "Algumas disciplinas são importantes, como direito tributário, comércio exterior, além de conteúdos específicos do setor que você vai defender."

Para ele, a melhor forma de ingressar na profissão é a prática. "Um bom começo é entrar em uma empresa ou consultoria de lobby, observar os mais experientes".

VIDA CORRIDA

O cotidiano do lobista é atribulado, com horários flexíveis. "Você tem que estar disposto a comparecer a eventos, ir a jantares com pessoas influentes, almoçar com políticos", diz Navarro.

Estar bem informado é essencial. Takaki começa o dia com a leitura de seis jornais, além de relatórios sobre nomeações de cargos e mudanças na legislação.

Uma ação de lobby requer também planejamento. O primeiro passo é manter um mapeamento do perfil de cada legislador, já que a maior parte do trabalho envolve derrubar ou promover projetos de leis que afetem os negócios da empresa.

"Não adianta perder tempo com aqueles que já têm o posicionamento consolidado, seja a favor ou contra", explica Marcelo Issa, diretor da Pulso Público, que defende empresas ligadas a ambiente.

Recentemente, ele conseguiu barrar no plenário um projeto contrário aos interesses de um cliente.

O processo começou seis meses antes do dia da votação. A empresa fez reuniões com legisladores ainda sem posição definida, nas quais apresentou dados e pesquisas de opinião pública.

"Não é incomum que eles mudem de ideia diante de argumentos técnicos", diz.

A forma com que o assunto é abordado influencia. "Não adianta entregar um estudo de 200 páginas a um deputado, você tem que captar sua atenção. Valem ferramentas como mandar livros sobre o tema ou promover audiências públicas."

Mas não existe uma fórmula certeira. Para cada situação, diferentes atores precisam ser mobilizados.

Envolvido em projetos de direitos humanos, Leandro Machado, da agência de advocacy (defesa de interesses) Cause, diz que o atual perfil do Congresso é mais conservador e, por isso, exige jogo de cintura.

"Precisamos buscar outras alianças, com meio acadêmico e agências do governo", diz.

REGISTRO

Nos últimos 26 anos, cerca de 15 projetos de lei sobre a regularização da profissão de lobista foram apresentados no Congresso. Todos sem sucesso.

Para Valeriano Costa, do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp, o fracasso das negociações se dá porque nenhum legislador quer se associar à atividade, vista com maus olhos pela população.

Este estigma, diz, é resquício da ditadura militar, "época em que esse tipo de comportamento era razoavelmente permitido".

Associações de lobistas defendem medidas para regulamentar a profissão e tirá-la do limbo.

Uma delas é a criação de um registro profissional, similar ao de advogados, que permitiria manter um histórico dos encontros com deputados e assuntos tratados.

Atualmente, códigos de conduta de servidores e congressistas já estabelecem o registro de reuniões feitas com agentes públicos. Mas, na prática, isso não ocorre.

"A fiscalização no Brasil não existe. O controle fica difícil sem uma legislação única", diz a cientista social Andréa Gozetto.

Embora a Operação Lava Jato tenha levado o termo lobista de volta às notícias de corrupção, profissionais da área rejeitam a associação da atividade com casos de desvios de conduta.

"Assim como há advogados e administradores corruptos, há lobistas corruptos", diz Roberto Navarro, da Copersucar, que diz ver uma profissionalização da função no país.

"O cara que faz isso não pode ser chamado de lobista, é um criminoso mesmo", diz Marcelo Issa, da agência Pulso Público.

Veja diferenças entre o lobby brasileiro e o americano:

FORMAÇÃO

Brasil: Direito é a área de estudo da maioria; há também jornalistas, marqueteiros, médicos, entre outros.

EUA: A maioria é formada em direito; ex-parlamentares e oficiais do Exército também exercem a profissão.

REGULAMENTAÇÃO

Brasil: Não existe registro oficial; cerca de 15 projetos foram apresentados no Congresso para formalizar a profissão, todos sem sucesso.

EUA: Lobistas e firmas terceirizadas de lobby são registradas; eles precisam apresentar relatórios com a lista de funcionários, clientes e atividades exercidas.

CAMPANHA POLÍTICA

Brasil: Lobistas podem fazer doações a candidatos; parlamentar, contudo, não pode ser relator de projeto que interesse financiadores de sua campanha.

EUA: Não há nenhum tipo de veto a doações de lobistas; contribuições acima de US$200 (R$ 706) devem ser declaradas.

PRESENTES

Brasil: Membros do Congresso não podem aceitar dinheiro, mas há brecha no código de ética dos servidores para brindes com valor de até R$ 100.

EUA: Membros do Congresso e seus assessores não podem aceitar brindes e viagens pagas por lobistas.

 

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