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10/03/2013 - 07h00

Empresas mostram como escapar das armadilhas do home office

FELIPE MAIA
DE SÃO PAULO
REINALDO CHAVES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Na era digital, as empresas de tecnologia costumam desbravar novos territórios também no mundo corporativo. Não raro novas práticas no ambiente de trabalho, como escritórios que se confundem com espaços de lazer e expedientes mais flexíveis, começam em companhias como Google e Facebook.

Há duas semanas, uma decisão do Yahoo! causou polêmica: a empresa de tecnologia decidiu banir o "home office" de todas as suas filiais.

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A justificativa no comunicado enviado aos funcionários foi a de que "a velocidade e a qualidade são muitas vezes sacrificadas quando se trabalha de casa".

No Brasil, trabalhadores, empresas e especialistas continuam a defender a prática, mas com ressalvas: há vários cuidados necessários para torná-la realmente eficiente.

Diego Gomes, 28, coordenador de planejamento estratégico do Citibank, por exemplo, pode trabalhar dois dias por semana em casa. Ele optou pelo trabalho remoto no dia de seu rodízio e na sexta-feira, quando o trânsito é pior.

Ze Carlos Barretta/Folhapress
Diego Gomes, coordenador de planejamento estrategico do Citibank, trabalha em casa 2 dias por semana
Diego Gomes, coordenador de planejamento estrategico do Citibank, trabalha em casa 2 dias por semana

Apesar de reconhecer os benefícios, ele afirma que precisou tomar precauções para sua produtividade não ser afetada, como criar um ambiente de escritório em casa e conversar com sua família. "[Com a família] precisa ser duro: das 9h às 18h estou trabalhando: não vou ao mercado e não vou consertar chuveiro. Tem que deixar claro."

Para o Citibank, a permissão é uma espécie de benefício para os profisisonais.

Mariana Roriz, gerente da consultoria especializada em recrutamento Hays, considera que a expansão da internet e das novas formas de gestão tornam irreversível o "home office". Sobre o Yahoo!, afirma que o episódio não pode ser visto como uma tendência.

"Esse caso tem questões internas que influenciaram a decisão, então não se pode dizer que o trabalho em casa não presta ou é a salvação."

Roriz afirma que hoje muitos candidatos a uma vaga já perguntam na entrevista se a posição permite "home office". Para ela, essa autorização deveria ser algo a ser conquistado mediante a confiança dos supervisores.

As empresas também procuram descartar certos funcionários na hora de escolher quem fará "home office". Por exemplo, a diretora de RH e responsabilidade social da Ticket, Edna Bedani, afirma que estagiários não devem atuar em casa. "São pessoas em formação, que precisam de orientação", afirma.

PILARES
A consultora Vera Boscatte concorda que funcionários que vão trabalhar remotamente precisam ser escolhidos com critério.

"Muitas vezes, a pessoa vai para casa e não tem controle, se dispersa e tem de ficar até de madrugada trabalhando porque não consegue se concentrar."

Nas unidades da HP (Hewlett-Packard) no Brasil, mais de 50% dos 8.500 funcionários têm possibilidade de fazer algum tipo de trabalho móvel. Antonio Salvador, vice-presidente de RH da HP Brasil, que inclusive também trabalha de casa, defende que as boas ideias surgem em qualquer lugar, não apenas em um escritório.

"A atuação em equipe pode acontecer virtualmente. Eu mesmo participo de times virtuais com gente do mundo inteiro, que não vai se encontrar em café nenhum."

No Citibank, os funcionários que se interessam pelo teletrabalho primeiro têm de participar de um workshop e precisam fazer uma autoavaliação, com aspectos pessoais e profissionais, para analisar se podem trabalhar em casa. Eles precisam avaliar, por exemplo, se trabalham com independência ou se sua performance precisa de acompanhamento constante.

Andrea Aikawa, superintendente-adjunta de RH do Citibank, acrescenta que a empresa não faz "home office" em todos os setores, por uma questão estratégica. "Não são elegíveis os funcionários quem têm contato com cliente ou que tenham acesso a dados deles", conta.

Especialistas também destacam a necessidade de disciplina do profissional que fica em casa.

"É preciso manter a rotina como se você fosse para o escritório -acordar, tomar banho, tomar café, se vestir", afirma Jorge Matos, presidente da Etalent, agência especializada em gestão de pessoas e carreiras.

No caso de Adriana Scagliusi, 41, gerente de RH para a divisão de consultoria da IBM, essa rotina começou há cerca de cinco anos, quando ela mudou de função e teve a segunda filha.

Danilo Verpa/Folhapress
Adriana Scagliusi, gerente de RH da IBM. aderiu ao esquema também por causa do nascimento da filha
Adriana Scagliusi, gerente de RH da IBM. aderiu ao esquema também por causa do nascimento da filha

A gerente usa um sistema da empresa que permite que ela se comunique instantaneamente com o escritório e trabalha com metas diárias. "Posso não estar fisicamente na empresa, mas estou fisicamente no que eu entrego", diz.

ORGANIZAÇÃO
O site de compras coletivas Peixe Urbano mantém estrategicamente desde sua fundação, em 2010, uma funcionária em "home office" nos EUA. É Letícia Leite, 31, diretora de comunicação corporativa. Ela vive em Nova York com seu marido e está grávida de sete meses.

Nos EUA, Leite mantém contatos com parceiros e outras start-ups (empresas iniciantes de base tecnológica), além de falar com jornalistas do mundo todo e coordenar a equipe no Brasil. "Organização foi importante. No início, trabalhava de madrugada. Hoje já organizo meus horários e separo um tempo para mim mesma. O importante é entregar os resultados -o tempo nós podemos tornar flexível."

Outro ponto estratégico do "home office" é a redução de custos para as empresas.

Graças a essa estratégia, a Ticket, por exemplo, conseguiu fechar 24 filiais físicas desde 2005. A única mantida foi a de São Paulo.

Bedani, diretora da Ticket, diz que a ideia era ter uma equipe de vendas nas cidades em vez de uma filial física com gastos de aluguel e manutenção.

"A implantação foi gradual. Em cada fase avaliamos a capacitação dos gestores, a infraestrutura tecnológica na casa dos funcionários e a política de reembolso de energia, móveis e combustível.

Segundo ela, a iniciativa rendeu economia de R$ 3,5 milhões no período e o volume de vendas subiu 40%.

Michele Moreira, 33, gerente de negócios da companhia, trabalha há nove anos na empresa e há seis está no regime "home office". "Consigo planejar melhor as visitas e contatos com os clientes porque não perco energia com a administração do escritório."

Ze Carlos Barretta/Folhapress
Michele Moreira, trabalha na área de vendas da Ticket e quando não está em visita a cliente trabalha em home office
Michele Moreira, trabalha na área de vendas da Ticket e quando não está em visita a cliente trabalha em home office

A Intel é outra empresa no Brasil que usa o "home office" há mais de 20 anos. A companhia tem 185 funcionários em regime misto e está em fase de implantação de um projeto de reestruturação dos escritórios para possibilitar a atuação remota total. Quatro funcionários já aderiram à prática.

Cristiane Carvalho, diretora de RH da companhia na América Latina, conta que a intenção é diminuir os altos custos de espaço em São Paulo, onde a empresa tem 170 funcionários. Ela espera uma adoção gradual dos funcionários pelo trabalho total em casa com a implementação de algumas ações.

"Há uma preocupação grande de manter o funcionário que trabalha em casa integrado e com visibilidade na companhia. Realizamos muitas reuniões remotas. Também sugerimos que os funcionários tentem marcar almoços entre si para manterem a amizade."

Caleb Bordi, 27, analista de marketing e produto da Philips, trabalha de casa duas vezes por semana. Sobre um possível isolamento, afirma que isso realmente causa certa apreensão, mas o problema é resolvido com os ganhos coletivos.

Ze Carlos Barretta/Folhapress
Caleb Bordi, trabalha no marketing da Philips e dois dias por semana faz home office
Caleb Bordi, trabalha no marketing da Philips e dois dias por semana faz home office

"Meus colegas e gestores falam comigo o dia todo. Nossa empresa está em Alphaville, então todos querem ter dias em casa para ter qualidade de vida."

GESTÃO REPENSADA
O Cetel (Centro de Estudos de Teletrabalho e Alternativas de Trabalho Flexível) da BSP (Business School São Paulo) estima que o Brasil tenha em torno de 12 milhões de teletrabalhadores, predominantemente nas áreas de TI, comunicações e vendas.

O coordenador do Cetel, Alvaro Mello, considera que o caso do Yahoo! vai contra a tendência de mobilidade do mundo corporativo atual e deve ser visto como um fato isolado.

"Grande parte dos trabalhadores já usa seus notebooks e smartphones para trabalhar remotamente", diz.

O artigo 6º da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) expressa que não existe distinção entre a produção realizada dentro da empresa e a realizada em casa.

Já a Lei 12.551/11 trouxe regras específicas sobre o teletrabalho, prevendo a possibilidade do reconhecimento do vínculo empregatício dos trabalhadores e a autorização para a remuneração das horas extras. Pela lei, a rigor todos os profissionais podem trabalhar em casa.

O advogado Sérgio da Costa Barbosa Filho, do escritório Gouvêa Vieira Advogados, afirma que o trabalhador que opta pelo "home office" deve exigir alguns requisitos essenciais no seu contrato.

"Ele deverá solicitar condições necessárias ao pleno desenvolvimento das suas atividades e deverá estabelecer as responsabilidades pelos custos gerados pelo 'home office'", orienta.

Carvalho, diretora de RH da Intel América Latina, critica algumas condições brasileiras que segundo ela impedem o "home office" de se expandir no país, como as regras do controle de ponto e a infraestrutura de tecnologia falha em muitas cidades.

"Aquele velho ditado de que é o olho do dono que engorda o boi surpreendentemente ainda vale para as relações de trabalho de 2013 no Brasil. Isso é uma pena."

No exterior, a Intel consegue manter o "home office" para uma gama de profissionais tão diferentes entre si como programadores de software, funcionários do setor comercial e engenheiros, diz Carvalho.

Conheça outros casos de sucesso

Serpro
Podem participar todos os empregados, mas há um processo seletivo. As pessoas trabalham somente no próprio domicílio, sendo necessário comparecer à empresa a cada 15 dias

Cisco
Todos podem trabalhar remotamente e podem decidir quando querem ir ao escritório. A empresa fornece as ferramentas necessárias para seus funcionários trabalharem remotamente

AES
Os colaboradores e gestores passaram por um treinamento, a fim de que possam entender os limites do trabalho remoto. Há casos de "home office" parcial ou de 90% fora da companhia

Ibope
O modelo é trabalhar dois dias em casa, ou pelo menos um no momento da transição, passando para dois após um período combinado com o gestor da área: geralmente de 6 a 10 meses

 

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